Não existe e nem vai existir a Televisão Interativa. O que poderemos ter futuramente é a televisão digital. Uma televisão que terá maior diversidade de canais, melhor qualidade de imagem, mobilidade e portabilidade. Só.

A interação que todos ambicionam está em sua melhor forma, única e exclusivamente, dentro do âmbito da internet (e crescendo progressivamente). Na internet temos milhares de usuários que criam conteúdos simultaneamente. Todo usuário de internet é um criador de conteúdo em potencial.

Do outro lado, a criação de conteúdo na “televisão interativa” se restringe apenas aos produtores do canal. Todo conteúdo interativo que o produtor criar é limitado pela capacidade e tempo de criação que uma pessoa ou uma equipe pode ter.

Na internet, todos são criadores, todos são interligadores de conteúdo. Pessoas gostam de conteúdos, comentam, interagem, repassam para outras pessoas. Grupos segmentados se conhecem através de interesses comuns, compartilham e desenvolvem novos conteúdos. Na televisão pessoas assistem conteúdos que outras pessoas produziram.

Por mais que a televisão tenha 50, 100 ou mesmo 500 canais. Com grades diversificadas. É incapaz de chegar perto dos milhares de vídeos enviados diariamente em canais na internet, como o Youtube. No youtube podemos comentar no vídeo do outro, inscrever-se no canal dele, trocar vídeos… na televisão não.

Diz-se que quando o espectador se interessa por algo que assistiu na “televisão interativa” ele terá a oportunidade de se aprofundar mais no conteúdo, a partir de um comando simples no controle remoto. Mas novamente, esse conteúdo mais aprofundado é restrito à capacidade de criação de um grupo de comunicação específico. E não há como competir com a capacidade de criação de milhares de pessoas na internet, que criam conteúdos multimídias, seja audiovisual ou textual, tudo ao mesmo tempo.

Sistemas de buscas no ciberespaço cumprem hoje o que nossos teóricos da televisão interativa não vão conseguir desenvolver em 100 anos, e não é questão apenas de desenvolver, mas sim de popularizar um novo sistema para os espectadores: uma tradição que a internet conseguiu fazer em 20 anos.

Hoje o internauta assiste um vídeo sobre carros no youtube, pesquisa sites que falam sobre carros no Google, procura em sites que mostram imagens, números, opiniões de pessoas que já tem o carro. Descobre que no mercado livre 16 usuários vendem esse modelo, cada um com o seu preço. Manda por e-mail, messenger ou twitter para um amigo que está interessado em comprar carros. Isso é a verdadeira interação e democratização que a televisão interativa nunca vai alcançar. Isso porque a televisão é parcial. Se o desenvolvedor da “interação” na televisão vendesse o mesmo carro, não colocaria várias possibilidades de preço.

Esqueçam a TV interativa, deixem a TV fazer o que ela sabe de melhor. A TV opera em um ambiente de conforto, o espectador quer apenas sentar e ver o que passa e não ficar clicando pra lá em pra cá. Na televisão, o espectador é muito mais tolerável a continuar assistindo um programa desinteressante. Na internet não. Ninguém consegue, por exemplo, assistir 3 minutos de propaganda em algum site de vídeo. Ninguém mesmo é capaz de assistir longos vídeos na internet, isso é coisa da televisão.

Deixemos cada plataforma lidar com o que sabe de melhor, inovação tecnológica não é motivo de banalização tecnológica. Vamos otimizar nosso tempo sinergizando a tecnologia e não misturando água em óleo.