O mito dos Deitados Polares – Capítulo 02

No capítulo anterior de “O mito dos Deitados Polares”, João veio do futuro para salvar a humanidade da desgraça causada pela degradação ambiental e todas aquelas coisas que estamos cansados de ver na televisão e que um dia aconteceriam… Pois é, a coisa ficou preta, literalmente falando: tudo o que é de vida na terra agora está pretinho de queimado. Estudiosos do século XXXII acreditam que um tal de mito dos Deitados Polares poderá salvar toda a raça humana menos os mendigos que cuidavam de carros (embora ninguém acredite realmente que essa peste poderá acabar um dia)…

Pra quem não viu, você pode ler o primeiro capítulo clicando aqui.

***

– FDP!!!

João olha para o lado como quem procurasse algum galho que servisse de muleta.

– Eu pego aquele velho! Hum… (olha atentamente para um pedaço de cano enterrado no chão) aquilo parece uma boa muleta.

O que faltava de inteligência em João sobrava de visão. E olha que ele usava óculos. Quando pequeno João costumava brincar em playgrounds abandonados onde recitava suas poesias escritas em giz de cera e papel reciclado para o velho Deus nórdico Thor, até que um pardal de mira fenomenal conseguiu atingir seus dois olhos n’uma única rajada.

Duas semanas depois, todos os médicos da pequena cidade de Dequeladovocemora (três precisamente, se contarmos o ajudante de enfermeiro que aos sábados também entregava pizza mas que podia suturar qualquer coisa em segundos) já haviam desistido de salvar a criança, por alegarem que o animal deveria ter comido alguma coisa realmente estragada antes de abrir fogo e que aquela pus que saltava do olho esquerdo de João poderia contaminar toda a população num raio de 234 quilômetros, o guri deveria ser levado em quarenta para o mais longe dali o mais rápido possível.

Como os leitores devem imaginar, não foi difícil separar a criança dos pais, na verdade foi um alívio, mas acho melhor não entrar nesses detalhes devido à preservação das moralidades da instituição familiar.

De qualquer jeito, estávamos falando da visão de João, logo depois que diagnosticaram a doença do menino como incurável e decidiram expulsá-lo da pequena cidade de Dequeladovocemora, o único lugar que o pequeno aspirante a viajante no tempo conseguiu ficar foi no humilde laboratório de experimentos do Doutor Alcides “cabeça-de-jaleco”, lá, mais do que uma amizade, firmou-se uma sociedade a qual Alcides entrava como cientista maluco e João como rato de laboratório… Tem também o estagiário, mas ele chegou bem depois e desde então só fez besteiras como café aguado (dizem ser coisa de gente retardada).

Bom, estávamos falando da visão do João. Logo que o cientista soube da situação da pobre criança, precaveu-se de não levar espirradas do olho esquerdo ao mesmo tempo em que utilizava todas as descobertas da medicina veterinária oftalmológica para resolver aquele problema, o que o doutor conseguiu fazer é limpar bem os olhos dele (da criança e dele mesmo) com água e sabão, além de deixar os olhos ardidos por alguns dias a visão de João não só voltou, como voltou três vezes melhor. Quanto aos óculos, ele usa porque dizem que o faz parecer com Rick Moranis.

E lá estava João, com seus óculos ao estilo “Querida encolhi as crianças” procurando uma nova perna quando avistou aquele pedaço de cano parcialmente enterrado à algumas dezenas de metros à frente. Ao bom e velho estilo Saci Pererê chegou até o cano.

Olhou.

Analisou.

Refletiu.

Experimentou puxar, não conseguiu.

Como quem resiste bravamente a árduos e longos dias de guerra, ele disse:

– Ah! nem queria uma perna mesmo.

E saiu a pular, procurando informações que poderiam lhe ser úteis sobre o mito dos deitados polares.