Festa dos calouros de medicina veterinária na casa do Luiz! Lugar simpático, e se fosse tirar todas aquelas bitucas de cigarro que ficam abrigadas dentro de copos, cantos de casa e debaixo da mesa, que por acaso, estão lá desde que ele foi morar naquela república, chegaria perto de um lugar visualmente aconchegante.

 Outra coisa engraçada do meu amigo, companheiro de confabulações sobre teorias do universo e tudo mais, é que ele faz medicina veterinária. Quando você é amigo de um cara que curte Raul Seixas, Engenheiros do Hawaii e Ramones, que por acaso eu também curto, sabe que isso não combina com o curso que ele faz. Tudo bem, estereótipos são muito complicados, mas quando ele quer colocar essas músicas numa festa de veterinária, você sabe que as coisas não vão caminhar bem dali pra frente.

Bom amigo que tentei ser, entrei na trama pra mudar o som de Vitor e Leo. Quando os autênticos aspirantes a médico veterinário não estivesse percebendo, a gente colocava um Rock das Aranhas, para isso, diminuiriamos gradativamente a música sertaneja e da mesma forma, aumentaríamos o som do nosso comparsa Raulzito, deixando-o fazer o que sabe de melhor.

“Por água abaixo” já dizia meu pai quando fala de um plano que não deu certo, nunca em toda a história da humanidade eu conheci um público com ouvidos tão apurados, foi ameaçar diminuir o som, que Raul Seixas foi vítima de blasfêmias que o faria levantar do caixão.

Era a hora de cair fora, nós dois saímos do quarto onde o rock tocava e como se não tivesse acontecido nada, voltamos pra varanda junto da galera. Todos olhavam para nós um tanto quanto irritados. Éramos suspeitos de um crime perfeito.

– Luiz, volta lá e coloca música de verdade.

Muitos especialistas em música destruiriam essa frase, como alguém pode ser tão sem compaixão para falar uma coisa dessas, nem mesmos nós, seguidores fieis do “hey ho, let’s go” faríamos isso com as músicas de César Menotti e turma. Falaríamos mal, talvez, do barulho que Belo faz com o que eles dizem ser pagode. Mas não, não com sertanejo, acho que, se tivesse uma menina bonita do meu lado me chamando pra dançar, eu até diria, “ah, sim, sertanejo, bom…é”.

Mas de qualquer forma, aquilo doeu no coração, “rock é música sim senhorita, passar bem”.

Antes que as coisas ficassem piores, um outro elemento vestindo chapéu, bota e uma fivela com um quase-búfalo estampado foi lá mudar o som. Para alegria do pessoal e nosso malgrado, as Borboletas de Vitor e Léo começaram a voar pelos jardins novamente. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, comecei a pensar o quão mal aquilo faria ao meu amigo nativo rockiano. Já comecei a inventar como ele ficaria com chapéu e todos aqueles apetrechos. Por um breve momento, lembrei das aulas de sociologia em que o professor dizia veemente como o meio influenciava o ser. Eu gostava de sertanejo, mas ver o Luiz vestido com essas roupas me preocupava. Incomodava ainda mais ver eu vestido daquele jeito.

Decidi aí que era melhor me afastar dessas amizades perigosas antes que fosse tarde de mais.

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